No arco da manhã abriram-se as portas e eu passei por ti etérea beleza da terra e da vida que cedo bebi
Nos beirais da tarde ergueram-se as palavras e eu cantei por ti eterna certeza magia da vida que encontrei aqui
No ventre da noite criaram-se as luzes e eu sonhei por ti tão grande é o mundo de um homem sozinho que chora e sorri
Dádiva do mundo que teu sentido bebe um sentir tão fundo que a lágrima descreve Dádiva do mundo tão densa e tão breve (poema, música e interpretação: João Cágado)
em defesa do rock, deste rock em especial... "Magna Terra"(João Cágado & Manuel Dias), como símbolo da minha ligação ao Alentejo:) neste excerto, o primeiro tema: "Guardador De Rebanhos"
Todo o século vinte reflectiu a pujança da alteridade, na sequência de uma certa carta que Rimbaud escreveu a Verlaine onde profetizava: Je est un autre. A poesia portuguesa, porém, inscreveu a alteridade logo na sua raiz, nas cantigas de amigo onde o amigo se alterava em amiga. O outro é assim a matriz medieval dos textos fundadores e voltará, pela mão do romantismo a essa fundação seja pelos pseudónimos seja pelos alterónimos. Uma outra tradição fundacional é aquela que chega pelos textos árabes deAl-Mutamid,Ibn-al-murahal ou Ibn-Ammar. Neles a cisão autoral não se verifica e a fragmentação em papéis não é vertida em texto. Talvez a posmodernidade seja, pela indefinição, o colapso da alteridade e a busca da inteireza ou do veraz.Tal altericídio, porém,não parece restituir o eu por muita negação do ego que seja praticada. O eu, como mito necessário e realidade fisiológica, aparenta-se sempre ao outro que o espelha ou distingue. Ao ler estes textos de Teresa Cuco, estas reflexões impõem-se-me como nuvem de onde seja possível chover pensamento. Teresa Cuco pratica uma atinência ao outro, sem no entanto se alterar em voz do outro. A estética mais aguda é, nela, a estética da recepção. Talvez de uma recepção inteira da qual não salvaguarda nenhuma parte neuro-emocional para praticar o póstumo. Esta resistência ao outro (a não mudança, a fixação no outro) traz como resgate a memória impregnada como lição aprendida em Simónides. O teatro da memória, nas ritualidades do quotidiano e antropoculturais, apresenta cada vez mais espectadores e cada vez menos viventes. O sistema de trocas, aparentemente terapêutico, processa-se pelo continuum, pela velocidade contra o sedimento. Muito raro haver quem, como Teresa Cuco, não se deslumbre com o instantâneo e consiga a permanência do invisível. Ou, como diz Marina Tsevetaeva: “Não é possível dividir-te/em cadáver e fantasma./Não te trocarei pelo fumo dos incensos/Ou pelas flores das campas.” alberto augusto miranda, in Prefácio, do Amor e da Espada, Teresa Cuco,Editora Corpos, 2008
[Une-nos o silêncio mágico da terra.
O arrepio das memórias das ausências.
Une-nos o espaço em branco
das palavras.
E o poema...
sempre o poema.]
Teresa Cuco, in do Amor e da Espada
As presenças:
Alberto Augusto Miranda, prefaciando...
Poemando... Margarida Morgado, Eduardo Raposo, Davide Santos e Ana de Sousa.
Musicando, nesta noite tão especial, João Cágado e Manuel Dias, com 3 temas de "Magna Terra":
- Guardador De Rebanhos
- Avondo De Mim
- Algo É Nosso
Improvisando... João Cágado, à guitarra, e os poemas de Teresa Cuco pela voz da própria!
e
concluindo... com o tema de encerramento da noite:
- Dádiva Do Mundo